Invisível

Postado por - domingo, maio 10, 2020

Créditos aqui.

Uma dor que dilacera a alma, sufoca e anula quem você é.

Se alguém perguntasse à Claire o que ela estava sentindo, com certeza essa seria sua resposta. Um pouco melodramática? Talvez. Entretanto, descrevia precisamente como estava naqueles últimos dias.
O sol entrava pela cortina, iluminando diretamente o seu rosto. Era como se o próprio céu escarnecesse de seu sofrimento. Conseguira dormir apenas às seis horas da manhã naquele mesmo dia, e agora, menos de três horas depois, estava acordada de novo. Tanto faz. Não era como se estivesse conseguindo ter um sono tranquilo no último mês, de qualquer forma. Os pesadelos assustavam tanto quanto a realidade, e entre o pavor da noite e a desolação do dia, Claire sentia não ter mais forças para suportar qualquer um dos dois.
O pesadelo começava exatamente da mesma forma, todas as vezes. Eric, seu namorado, sempre estava presente. Sentados no banco da praça, observando as estrelas, reinventando nomes para as constelações que enfeitavam o céu noturno e apreciando a companhia um do outro. 
Ela riu sem humor ao pensar nesse detalhe – como se Eric tivesse se dado ao trabalho de apreciar sua companhia nos últimos três anos. Como se em algum momento na história que compartilharam juntos, ele tivesse se preocupado de fato em fazê-la feliz.
Logo a cena romântica (e surreal) era substituída por outra: eles não estavam mais sozinhos, pois Zack e Jake se aproximavam em sua direção. Saídos de dentro da casa da própria Claire ali perto, óbvio. Eles nunca estavam muito longe mesmo.
O que acontecia a seguir era o que realmente assustava Claire e a fazia acordar atormentada todas as madrugadas. Zack, Jake e Eric começavam a travar um diálogo sobre o último acontecimento político internacional e simplesmente ignoravam sua existência, mesmo que ela estivesse ali, sempre ao lado deles. A conversa continuava por horas a fio, abordando os mais diversos assuntos, e ela sempre era ignorada. Quando enfim recordavam sua existência, quase no final do pesadelo, Eric respondia em seu lugar, pois Claire descobria que havia perdido a voz. A garota abria a boca e se sentia gritar, mas nada saía de sua garganta. 
Então era isso. Estava invisível. 
E se ninguém a via, será que ela realmente existia? 
É claro que aquele pesadelo contínuo e aterrorizante refletia os maiores medos de Claire enquanto estava acordada. Ela tinha plena consciência de que o relacionamento havia alterado muita coisa em si durante os 5 anos em que estivera com Eric, mas apenas nos últimos meses que sentira que sua essência estava sendo lentamente dissolvida. Aos poucos estava deixando de ser Claire, para se tornar uma cópia de Eric – ou mais precisamente da pessoa amargurada e raivosa que ele havia se tornado. E aquilo a destruía por dentro. 
Era cansativo. Tudo o que sustentava sua permanência eram as lembranças dos dias felizes que haviam compartilhado um dia, de quando o riso era fácil e gostoso. Ela não sabia porque permanecia. Que sentido há em compartilhar o presente com alguém por conta do que ela foi no passado? Quando você entra em um relacionamento, espera sentir-se em paz, feliz e na expectativa. Em paz com o passado, feliz pelo presente e na expectativa do que o futuro reserva. Se faltar um elemento na equação, será que ela se sustenta? 
Havia demorado muito para chegar próximo dessa conclusão. E mesmo sabendo que pouco havia restado, era doloroso imaginar colocar um ponto final e extirpar de sua vida uma pessoa que havia se tornado tão familiar. Mas Claire precisava disso. Caso contrário, restariam duas opções: assumir de vez que era invisível e sobreviver (pois era o que vinha fazendo), ou entender que estava se autossabotando e dar uma chance a si mesma de ser verdadeiramente feliz. 


Com muito esforço, Claire atirou as pernas para fora da cama. Encarou os livros que rodeavam-na, sem vontade de mergulhar em nenhuma daquelas aventuras. A cortina permaneceu fechada, com aquele feixe de luz insistente escapando por uma brecha. Luz nas trevas, foi a primeira coisa que passou por sua cabeça em meio aos pensamentos dramáticos que sempre assaltavam-na. 
Quando encarou-se no espelho, a ideia retornou. Luz nas trevas. Sim, definitivamente, estava vendo ali de novo. Seria aquilo um sinal? 
Pois o reflexo que a encarava de volta na superfície do espelho concentrava uma mudança sutil, mas ao mesmo tempo significativa. Você provavelmente não notaria, pois não estaria procurando. Mas todos os dias Claire buscava em si mesma a força para dar o passo final. E enfim havia encontrado: um brilho discreto, mas presente no fundo de seu olhar. Um brilho que lhe deu a segurança necessária para fazer o que devia ser feito. Era como se diante de si houvesse outra pessoa – uma Claire mais segura, centrada e determinada. Ela parecia lhe dizer: “Vai ficar tudo bem. Se você precisar, estarei aqui.” 
Claire apanhou o celular antes que a coragem fosse embora. Inseriu a senha, abriu o aplicativo de mensagens instantâneas e pressionou a última conversa realizada – e uma das únicas nos últimos tempos. Havia se afastado de tanta gente... 
Duas palavras foram digitadas. E Claire sabia que elas marcavam o início de sua nova vida. 
“Precisamos conversar”. 
Ela conseguiria. Porque era forte e não estava disposta a aceitar migalhas. 
Claire não seria mais invisível.




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