Viver sem ler é perigoso.

Resenha || As Crônicas de Artur, de Bernard Cornwell

A arte na parte inferior da imagem é de Flávio Ribeiro.

Querido leitor, antes de mais nada preciso avisar que farei uma análise da trilogia completa e não apenas de um único livro. Tentarei não entrar em detalhes da trama para evitar spoilers e focarei nas sensações que os livros passam, assim como seus pontos positivos e negativos.
Bernard Cornwell atualmente é mais conhecido por suas As Crônicas Saxônicas. Para quem acompanha a saga de Uhtred (assim como eu), o primeiro passo para adentrar na história arturiana é compreender que As Crônicas de Artur foram escritas antes de As Crônicas Saxônicas e, portanto, não é justo cobrar da primeira a mesma maturidade literária apresentada na segunda.
As Crônicas de Artur são uma trilogia que retrata uma das mais famosas histórias do Ocidente, que já foi narrada em músicas, filmes, séries, jogos e livros. Mas, se já existem tantas publicações em torno do mito arturiano, por que se aventurar mais nesse? Por causa da assinatura do autor, claro. Cornwell é um especialista em ficção histórica.


Entre os séculos IV e VI d.C., existiu um Artur na Britânia (atual Reino Unido) e teve um papel importante na luta contra os saxões, provavelmente também existiu um Merlin e uma Morgana, assim como outros nomes famosos. A cultura dos bretões não transmitia sua história através da escrita e sim da oralidade, criando um verdadeiro telefone sem fio e nos impossibilitando de chegar perto dos reais acontecimentos daqueles personagens. Cornwell fez uma pesquisa histórica sobre o cenário do século V e das principais fontes históricas que cercam Artur Pendragon, e o resultado é uma boa ambientação, mas com falhas que podem incomodar algumas pessoas. De forma geral o mito e história se entrelaçam nos livros.
O primeiro livro, O Rei do Inverno, irá mostrar a ascensão de Artur. O segundo livro, O Inimigo de Deus, nos apresenta o comandante da Britânia enfrentando as dificuldades de governar. O terceiro livro, Excalibur, mostrará as maiores conquistas e os piores pesadelos da vida de Artur.
A história é narrada em primeira pessoa e o protagonista é Derfel Cadarn. Sim, aqui pode residir o primeiro impacto negativo da leitura. O mais lógico seria esperar uma narrativa pelo ponto de vista do próprio Artur, saber como que a sua mente genial trabalhava, conhecer os medos e sonhos do maior herói bretão. Confesso que demorei um pouco para me acostumar com o protagonista, mas durante o desenvolvimento da leitura a sensação de que faltava algo foi diminuindo e no final do terceiro volume pouco me importava o que Artur estaria pensando.

Derfel Cadarn.

Derfel é um saxão que quando criança viu sua vila ser invadida por britânicos. O druida Tanaburns o jogou no poço da morte, mas Derfel sobreviveu. Merlin viu nisso um sinal de que ele era um favorito dos deuses e o adotou. Circunstâncias infelizes fizeram-no se encontrar com Artur. Acompanhamos Derfel desde que era uma criança até se tornar um idoso e é através dos olhos dele que descobrimos quem foi Artur, Merlin, Morgana, Lancelot, Guinevere, entre outros.
A história começa com Derfel velho, morando em um mosteiro e sem uma das mãos. A pedido da rainha Ingraine, o protagonista irá escrever a história real por trás da lenda de Artur. Ingraine representa os leitores que até então conheciam as histórias arturianas moldadas pelo romantismo e ideais de cavalaria. Logo no início ficam duas perguntas no ar: a primeira é como Derfel perdeu a mão e a segunda é como ele foi terminar seus dias em um mosteiro. No conflito religioso entre os deuses antigos e o cristianismo, Derfel odeia a igreja e ama os deuses.
No Rei do Inverno a narrativa sofre oscilações; o protagonista ainda não se faz muito interessante e fica longe dos principais acontecimentos. Passamos por momentos de devorar as páginas e de senti-las pesadas, a leitura fica arrastada. Durante O Inimigo de Deus a balança se equilibra, a leitura torna-se mais dinâmica e o protagonista mais interessante, começamos a torcer por Derfel e a compartilhar suas angústias e seus sonhos. E em Excalibur? Fica praticamente impossível pararmos a leitura. Os defeitos do primeiro livro não se fazem mais presentes, personagens pouco explorados nos livros anteriores ganham um destaque perfeito e a trama adquire ares de suspense em sua metade final.


E aquelas falhas históricas que citei anteriormente? Elas ficam por conta da concepção em torno dos druidas que Cornwell criou. Os registros históricos que temos mostra um equilíbrio social entre druidas e druidesas e muitas das ações de Merlin não faziam parte do cotidiano dos druidas. Eu sei que que a obra é baseada em fatos históricos e que ela deve ser preenchida pela criatividade do autor, mas é que nesse caso especifico o acontecimento não incrementa a narrativa e até causa um certo mal-estar se pararmos para pensar o que Merlin realmente fazia. O bom é que só se fez presente no primeiro livro.
Ao longo de toda trilogia somos presenteados com batalhas épicas e viscerais. As famosas paredes de escudos se fazem presentes e as palavras do autor nos transportam até elas. É quase possível sentir o hálito de cerveja do inimigo que nos ataca.

Vale a pena ler as Crônicas de Artur? Se você gosta de ficção histórica, das lendas arturianas, de histórias medievais e/ou dos pontos positivos que levantei, a resposta é sim.



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  Título da Série: As Crônicas de Artur - Trilogia Completa
  Autor: Bernard Cornwell
  Editora/Tradução: Grupo Editorial Record/Alves Calado
  Páginas: 546/496/532.
  Onde Comprar: Amazon || Submarino || Saraiva 





Esta resenha foi escrita por Alex Almeida da Silva.

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